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AutopoieseSilêncios, memórias, sonhos, planos, música, fragmentos de sono, crônica, alguma poesia, saudades, rascunho, ensaio, esboço da feitura de mim... |
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November 14 Perséfone Entre os espaçosOctober 24 OféliaNa onda calma e negra onde dormem estrelas dos céus A branca Ofélia flutua como um grande lírio, Flutua lentamente, deitada em longos véus... — Ouvem-se longe nos bosques da caça os delírios. Fazem mais de mil anos que a triste Ofélia Passa, fantasma branco, no longo rio cor da noite. Mais de mil anos que a sua doce folia Murmura sua cantiga à brisa da noite. O vento beija seus seios e como pétalas estende Seus grandes véus embalados pelas águas levemente; Os chorões arrepiados choram em seu ombro que prende, Na sua fronte sonhadora os juncos inclinam docemente. As Vitórias-Régias amassadas suspiram em volta dela; Ela acorda às vezes, num álamo adormecido, Algum ninho, de onde escapa uma assopradela: — Um canto misterioso parece dos astros caído. II Ó pálida Ofélia! bela como a neve! Sim, morreste, criança, e um rio te leve! E que os ventos caindo dos grandes montes da Noruega Te falaram baixinho da áspera liberdade; É que um sopro, torcendo tua grande cabeleira, Ao teu espírito sonhador levava estranhos ruídos; Que teu coração ouvia o canto da Natureza inteira Nos lamentos da árvore e nos suspiros doídos; É que a voz dos mares loucos, grito agonizante, Quebrava teu seio de criança, demais humano e doce; É que uma manhã de abril, um belo cavaleiro andante, Um pobre louco, mudo a teus joelhos sentou-se! Céu! Amor! Liberdade! Que sonho, ó pobre Louca! Derretias nele como neve com fogo ao lado; Tuas grandes visões mataram a palavra da tua boca - E o Infinito terrível assustou teu olho azulado! III — E o Poeta diz que aos raios das estrelas Vens buscar, à noite, flores em delírio, E que ele viu na água, deitada em longas velas, A branca Ofélia flutuar, como um grande lírio. (Rimbaud, Artur - 15 de maio 1870) October 18 Não desisto enquanto não encontrar a Potzdamer Platz..."Fala, musa, do narrador, velhíssimo e ingênuo, à borda do mundo e dá-nos a conhecer através dele todas as coisas e cada um...Com o tempo meus ouvintes tornaram-se leitores. Já não se sentam em círculos, mas isolados, sem saberem uns os outros.Sou um velho com voz enfraquecida, mas a narrativa continua a surgir das profundezas e a boca entreaberta continua a repetir com vigor e sem esforço uma liturgia em que não é preciso ser-se informado sobre o significado das palavras e das frases.O mundo parece entrar no crepúsculo, mas eu continuo a narrar como no começo a ladainha que me sustém, preservado dos distúrbios de nossa era e reservado para o futuro.Não mais o rabiscar do outrora através dos séculos. Agora só penso no dia a dia. Os meus heróis já não são mais os guerreiros e os reis, mas as coisas da paz, todas por igual. Tanto os bulbos que se secam como o tronco de madeira que atravessa o pântano. Ainda ninguém conseguiu entoar uma epopéia da paz. Que tem a paz que a longo prazo não causa entusiasmo? E que pouco se deixa contar a seu respeito? Devo desistir agora? Se desistir, a humanidade perde o seu narrador, e perdendo seu narrador, perde a inocência da infância.Não consigo encontrar a Potzdamer Platz. Será aqui? Não pode ser? Era na Potzdamer Platz que estava o café Josti. Á tarde ia lá, conversar, beber um café e observada o público depois de tomar um charuto na Loese & Wolf uma tabacaria de renome, aqui mesmo em frente. Isto não pode ser a potzdamer Platz. Não se encontra ninguém a quem possa perguntar. Era uma praça cheia de vida. Ônibus, Elétricos com cavalos e dois carros, o meu e o do negociante de chocolate. Os armazéns Wertheim também eram aqui. Depois, de repente, apareceram bandeiras. Ali. A praça delas estava cheia delas. As pessoas deixaram de ser amáveis e a polícia também. Não desisto enquanto não encontrar a Potzdamer Platz. Onde estão os meus heróis, onde estais os meus filhos, onde estão o meus, os simples de espírito, os primitivos. Dize-me musa, o nome do podre cantor imortal que, abandonado pelos seus ouvintes mortais, perdeu a voz e de anjo de narração passou a tocar realejo, esquecido ou escarnecido, lá longe, no limiar da terra de ninguém."(Asas do Desejo (Wings of Desire). Título original, em alemão: Der Himmel über Berlin (O Céu sobre Berlim). Dir.: Wim Wenders, 1987. Tempo: 128 minutos. Cor: Preto & Branco. production companyWim Wenders, Anatole Dauman Road Movies- Argos Films) |
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